Encantada.

Ela sabe bem por-se em seu lugar.


Juliana Almeida




















Menina de pernas tornas,
jeito manso, olhar bruto.
Das cores que tu buscaste Criatura
decidiu ser a mais mimada delas.
Olhe em tua volta, teus moveis se
encontram na mais perfeita ordem.
E ontem? Nem me fale.
Estava tudo desorganizado,
organizou-se uma máfia contra ti.
Juras, reza, pede, implora.
Queres ficar? Pois fique.
Nunca aborreceu a tua alma,
pois é dela que sai teus poemas,
tuas palavras bonitas e pacificas.
Se acreditou em tolices humanas
puseste todas elas para correr longe de ti.
Tua fé não morreu, teus dedos não
estão congelados, não.
Tu abriu teus olhos brutos e viu.
Viu?
Os gatos, pássaros, baleias, onças,
viu tudo que sempre quis ver.
Cegaram a ti uma vez
e eu bem sei que não deixará
que novamente venha a ti todas
as tolices humanas.
Na sua infinita pureza,
nunca seja santa.

A moça de sempre.

"Das coisa que te falei era 
tudo a pura verdade de mim.
Não mentiria para ti, 
do mesmo modo com que tu não 
esconde de ti tuas palavras."

Um comentário:

victor andrade disse...

Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.
E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?
Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?
Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?
Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?
Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obra
da natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?
Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?