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Que eu amo.


Ela caçoa, mas não vive sem mim.
Ela brinca de guerra, mas eu sei
que quer a paz do meu colo.
Diz que é moça, mas eu sei
que é dona do meu pecado.
Resmunga pela manhã e prefere café,
amargo e com leite.
Ela tem toques e retoques,
tem jeitos e bocas, faz caras.
Ela diz entender, mas o futebol
não a entende, não.
Seus dentes rangem em meus ouvidos
e os lábios úmidos multiplicam o desejo.
Ela pisca o olho. 
Seu pijama azul clareia as noites frias
e seu corpo esquenta noites.
Ela diz que quer filhos,
depois pede cachorro de presente,
mas ela já me tem.
Diz estar grávida e o alarme é de atraso
causado pela ansiedade de tanto amar.
Ela discute com os moveis,
deseja bom dias aos pássaros,
ela me deixa boquiaberto, quieto.
Diz ser a mulher desastre,
mas no fundo é a mulher que eu amo. 

Carta.

São Paulo, 27 de abril de 1986.

Caríssima mãe. 

Eu decido e estou decidida. 
Não pretendo voltar para casa. Assim que concluir meu curso ficarei aqui e me casarei com o Fernando, entenda de um vez que ele é um bom homem e que me fará muito feliz, me dará filhos e te dará netos. 
Assim que terminar de ler essa carta avise a papai e a Carolina, ela deve esta ansiosa pela minha chegada. Quando puder deixe que ela venha me visitar, o apartamento é apertado, mas eu sei que minha irmã não é espaçosa de mais, há de caber aqui junto comigo. 
Me perdoe por te escrever avisando que não voltarei, perdão. Ano que vem, antes do casamento, prometo ir até aí para ver todos vocês e não tenha duvida de que eu tomarei um café do papai. 

Abraços, Marília. 

A menina do castelo.


Ela continua num castelo, o mesmo que foi criado por sua mãe como modo de proteção. Mas o que se cabe de sentimento na menina é desejo de liberdade. Hora ela sopra teus ventos de desabafo a coisa nenhuma, hora adormece em meio a lágrimas por sentir-se tão só e presa nas garras da proteção. Maldito seja!
Ela esforça-se para comer, tenta participar de todas as refeições em família. No café da manhã tenta deixar o rosto pálido para que chame a atenção de alguém, para que alguém diga-lhe "Estas enferma!". Mas nada acontece. 
Esforça-se no almoço e a unica coisa que consegue ingerir é arroz e batatas, sim, ela sempre gostou de arroz e batatas. Esforça-se para lavar a louça com sua mãe, esforça-se no lanche da tarde e as 16h tenta equilibrar a mente e manter-se atenta a professora de canto, a senhorita Elizabethe. 
Ela canta um, dois, três e desmaia de tédio. Pede tempo, água e mais uma vez esforça-se.
Ela cansa-se desse mundo de esforços, de obrigações e proteções cruéis  Imagina-se em um lugar distante, cheios de borboletas verdes, gatos azuis, pássaros que cantam canções de ninar, árvores monstruosas por tamanho inimagináveis... ela devora! 
Deita-se na grama e pede fruta, morde e sente o verdadeiro gosto da fruta proibida que seu pai havia lhe contado. Observa o céu, ele possui nuvens amarelas e lilas. Ouve um rio que corre por perto e sente cheiro do que mais lhe agrada.
Todas as noites a menina deixa-se levar por ela a esse lugar distante. Ela nunca cansa de ser o que realmente deveria ser, longe da proteção de sua mãe. 
                                                                                                                      "... e você assim, observe!"

Ruína.


Ela apoio-se, mirou seu destino por baixo de seus pés.
O vento era bravo e o frio perverso. Ela tremia por medo, por frio e falta de coragem.
Pensou por três vezes e decidiu abandonar a vida, atirou-se ao abismo de esperanças 
na espera de que lá embaixo encontra-se o necessário, o suficiente para respirar com calma.

                                                      Esperança leva... carrega alma.

Raquel.

Eu não o amo!
Meu senhor nem desconfia de minha tamanha ousadia. Às vezes, quando fica tarde, espero que ele durma para que eu possa partir rumo aos braços de minha futura discórdia. Espero me arrepender de tudo isto, sei bem que aos olhos de Deus isto é pecado mortal, mas prossigo nessa doença infame que consome meu juízo.
Fui muito bem educada, recebi todos os conhecimentos sobre minha fé. Eu ia as missas, mas agora o corpo que comungo, que me alimenta não é o do Cristo. Meu senhor ainda acredita em mim, pensa que sou uma mulher de fé, de temor a Deus. Como poderia eu mentir para ele? Nunca. Aproveito-me disto.
Já faz duas semanas que aquele rapaz aquece meu corpo pálido, faz duas semanas que meu senhor procura-me e estou enferma, com dores no corpo, enxaqueca, dor de dente, dor na consciência. Cada dia eu lhe dou uma dor diferente, mas o faço por não suportar mais que ele toque meu rosto, meus dedos, minha boca. Não o amo mais!
Espero que Deus nos perdoe, espero que me perdoe. 
Nesse breve momento meu quarto se faz em silêncio e eu ainda penso se me vale mesmo estar aqui, eu poderia fugir. Talvez numa outra cidade eu poderia mostrar minha face... sou incapaz. 
Sou covarde o suficiente para continuar não amando meu senhor. 

Da traição a descoberta.

Julián Rodriguez Orihuela

























Ela banhou-se, tomou gole de café e soube do ocorrido. Não lhe doeu coração e nem ossos.
- Não lhe peço perdão, não sinhor. Se tua mulher discubriu que tu tá comigo a culpa é mais tua do que minha. Mas veja você? Eu, trabalhando... procurei ninguém não. E dispois se tu veio aqui atrás de fogo, que viesse antes. Tua muler nunca que lhe deu prazer.
- Mas Carmosina, meu amor. Não é assim... como posso me explicar?
- Nem comece a explicar nada, tu deve de explicar pra tua muler e me dexe que hoje a noite vai ser longa e eu preciso de discançar. Ande homem, se pique daqui.
- Oh meu amor, trate seu amado assim não.
- Amado coisa ninhuma. Tu é da tua muler e se tu tá aqui querendo se explicar e cheio dos dedo é causa de que ta com medo do que o povo vai falar quando suber que tu sai de casa pra cair nos braços de muler feito eu. Olhe homi, lhe digo uma coisa... eu num tô aqui pra guentar disaforo de seu ninguém, se tua muler prejudicar meus trabalhos de prazer e a Dona Lurdes me botar pra fora do salão eu juro pelo meu Padre Cícero que eu faço picadinho, mas bem picadinho de tu e de tua muler. Agora se coise e se pique daqui, suma.

A caixinha.

Brooke Shaden
























Beatriz prometeu. Jurou que guardaria todas as cartas em um lugar no qual sua mãe nunca tivesse acesso algum, um lugar que seu pai jamais passaria por perto e ela fez assim. 
Guardou as cartas em uma caixinha, presente de sua vó quando tinha cinco anos de idade. Nas primeiras semanas escondeu a caixinha em baixo da cama, mas notou que sua mãe tinha o costume estranho de olhar todo seu quarto. Decidiu esconder na varanda da casa e o esconderijo só durou um dia, temeu por visitas. Escondeu a tal caixinha na cozinha, nos aposentos de visitas, na biblioteca, em baixo de mesas, das cadeiras de canto e até mesmo dentro de um jarro que seus pais ganharam de presente de casamento. 
Escondeu, escondeu, escondeu... decidiu dar fim na caixinha. 
Pegou uma pá e partiu rumo ao jardim da casa. Cavou, cavou, cavou e enterrou lá. Voltou pra casa satisfeita por saber que ali ninguém encontraria, ninguém saberia seu segredo. Passaram-se dias, semanas, meses, anos, décadas... e lá a caixinha ficou.
Num dia desses de pouco sol e vento bom que leva cheiro das flores pra onde for, Dona Beatriz decidiu cuidar do jardim com seu neto Pedro. Contente o menino estava, contente a família não ficou quando descobriu por curiosidade de Pedro a caixinha. Leu-se as cartas, todos da família choraram, emocionaram-se com tantas palavras e por fim o decreto final do filho mais velho, o Antônio: - Decepção, mamãe. Não lhe dou surra por ser pecado tocar de mal gosto na própria mãe, não quero ir para o inferno. Depois de todas essas cartas posso encontra-la por lá. 
A Beatriz quis explicar-se, mas a Dona Beatriz não suportou palavras do filho e foi ler suas cartas ao diabo.

                                                           Dedicado as minhas flores cheias de suas cartas. 

Falta luz.

Em seus cálculos. Boca exangue, rosto pálido e as reclamações. Falta tempo, disposição e dinheiro para colocar sua filha em uma escola digna. Dignidade já lhe caiu da boca e o que restou foi algumas migalhas em seu colo. 
A mulher resmunga, pede divorcio e aceita a chantagem de continuar no cotidiano maldito: pão, feijão, pão. A água não foi paga, na padaria o saldo é negativo e a luz já se foi, nem vela ilumina mais a vida do casal.
A filha decide morrer, mas a morte cobra caro. Leva a avó, leva o primeiro, mas não leva a maldita fome. 

(...) eles passarão. Eu passarinho.

Grace

Você pode até pensar ou dizer que eu não sou uma boa menina, mas o tal destino provocou-me a ser essa aqui estampada no mundo. Eu sempre avisei que eu seria uma boa menina, nada de ânsias, de desespero, preocupações. Eu me comportaria e procuraria a solução de tudo, o caso é que as coisas não funcionam bem aos desejos do papai. 
Um dia, assim como quem nada quer, eu decidi ir em direção ao jardim, talvez para mirar bem os pássaros com meu badoque, ou sair correndo atrás das borboletas. Mas nada disso foi possível, o maldito do jardineiro, que poderia muito bem ter abusado de mim, procurado meu corpo infantil, preferiu cavar e o buraco era maior que eu. 
Lá eu fiquei, oito dias. O imbecil do papai nunca pensou em procurar-me por lá e eu tive que sobreviver. Não me bastasse aturar aquela vidinha maldita, eu ainda tinha que sobreviver dentro de um buraco, mas dentro ou fora daria no mesmo.
Nos primeiros dias eu suportei a fome e a cede, nem pensei em gritar, gastaria toda minha beleza e paciência. Esperei algum bicho cair no buraco, assim como eu caí (tola), mas ele seria a minha presa. No terceiro dia eu comecei a comer as formigas, na minha boca elas tinha gosto de amora, tinha que ser amora pra eu me sentir alimentada. No sexto dia eu já estava fraca, o suficiente para comer até um passarinho, mas eu não tinha essa sorte. Como eu queria comer um passarinho! Continuei nas formigas e depois encontrei algumas minhocas. 
Quando papai me encontrou eu estava desacordada, me lembro de ter acordado no meu quarto, a Doce, minha boneca, estava de olhos em mim. A babá do meu lado sorridente e eu com um humor de quando nasci, não tô pra graça. Pedi água e algo pra comer. Sopa era meu prato odiável e o papai fazia questão de alimentar-me assim, nessas horas eu desejava ter a mamãe por perto. Mas ela teve que partir, papai me contou que ela tentou matar uma criança, disse que era louca. A criança era eu e hoje eu fico pensando, maldita seja a mamãe, esperou eu cair num buraco pra depois me matar. Vida!

Amor atropelado.

Carmen

















Existem coisas que eu não consigo compreender, ou que simplesmente não conheço. Mas não é pelo fato de eu não me permitir, de não deixar agir em mim todas as minhas curiosidades. 
Uma vez eu tentei aprender a andar de bicicleta e me dei bem, saí carregando latas de lixo e o amor da minha vida. É que o Arantes inventou de aparecer pra mim bem no momento em que eu decidi matar alguém ou me matar, porque eu de bicicleta, como diria a tia Flora, é pior do que campo de guerra. 
Saí com meus arranhões e o amor. Eu não tive sorte, não acredito nela. Foi tentando compreender como era andar de bicicleta e mesmo sabendo que eu corria o risco de me machucar que eu o encontrei. 
Os riscos são os mesmos, mas diferente da bicicleta, eu tenho lá uns sentimentos por ele, coisa boba, nada de mais. 
Ontem ele me pediu em casamento e eu me lembrei desse dia em que nos conhecemos, pensei. Vale mesmo? Bem, eu até queria a resposta aqui na palma da mão, tentaria ir em uma cigana, mas me sairia caro. Por fim, eu prefiro aceitar o desafio, como do inicio, e ver no que vai dar. E eu sei que tombos, arranhões, cortes... essas coisas e muito mais virão, mas eu me levanto e pedalo novamente, com ou sem ele.

Menino.

Adriano


















Um dia aquele menino abriu o portão e correu em direção a rua.
E o mesmo menino procurou abrigo nas esquinas, buscou alimento lá na igreja do padre Damião.
Todos os dias andava descalço no asfalto e corria ao meio dia para a casa da dona Ana.
A tarde era bola com os meninos do condomínio e fim de tarde era papo com Manuela do apartamento 43.
No escuro que cobria os prédios ele procurava chão, colchão, sapato e cobertor. O seu Bezerra lhe entregava pão e leite.
Todas as noites o menino sonhava o mesmo. Um dia de sol bonito, com seu sapato novo, caminhando pela praia e seus olhos miúdos de sol.
Seu pai ao lado e sua mãe o aguardando para um abraço.

José.

M. Vargas

























A Marcela pegou suas roupas e de forma brutal arrumou cada peça, ao menos tentou arrumar.
Chorava desesperada, me pediu um cigarro e acendeu.
- Eu nunca imaginei que seria assim, dessa... desse jeito.
- Nem eu. (talvez já)
- Nem você o que? Acha que com ela vai ser diferente? É assim que pensa?
Ela tragava o cigarro de um jeito que parecia ser sua unica salvação, como o ultimo copo d'água do planeta. Secou os olhos e espantou todas as lágrimas de decepção. Eu sei, a Marcela esperava o melhor de mim, mas eu não fui capaz.
Às vezes eu acho que o pai tá certo, eu não sei cuidar de mim, quanto mais de um relacionamento. Mas ela não queria saber disso, infelicidade e uma traição com a Paula já foi o suficiente. Ela partiu e eu continuei a vida. 

Saudade direcionada.

Luigi

























Mãe.

Tô no Rio há três semanas e a saudade do seu carinho me aperta a cada dia.
Todos os dias ao levantar lembro do teu riso me despertando pra mais um sol. E no almoço o estômago reclama por falta do seu tempero único e delicioso. Tenho comido muita salada, peixe, frutas. Estou me alimentando bem. O papai tem se esforçado pra me agradar, ontem mesmo passeamos por Copacabana. Gosto da cidade, mas não gosto da distância, eu odeio ficar longe de você. 
Tenho lido muito com a vovó, ela é especialista, como diria ela, em Drummond. Estou gostando da leitura. Outro dia ela leu "Caso do vestido", juro eu eu lembrei logo da senhora. Minha infância ao seu lado, meus questionamentos. Que saudade da senhora, minha mãe.
Agora estou me preparando pra dormir, enquanto vovó traz meu leite eu te escrevo esse email. Ah, preciso confessar que acho vovó meio louca. Perdão por dizer isso, mas ás vezes ouço ela conversando sozinha. Acredita que um dia eu peguei ela conversando com a senhora? Na cabecinha dela a senhora a ouvia e olha que nem estava no telefone.
Bem, vou me deitar, estou com muito sono e amanhã papai vai me levar em um museu. 
Sinto saudade sem fim. Te amo.

Enviar email.
- Pai, qual o email do céu?

Diário Bianca.

Ao som de Maria Rita.

bobi

























Tenho vivido muito só ultimamente. Papai e mamãe dizem que isso vai me fazer bem, mas na verdade eles não sabem da minha solidão. 
Aproveito cada momento comigo e às vezes me dá medo, dá um gosto na boca de inexistência. Compreendo meu lado presente, compreendo.
Tenho me alimentado pouco, porém bem. Meus drinques e meus cigarros são como marido e amante, presentes, mas nunca me saciam. 
E vou seguindo descrente das criaturas ao meu redor, dos mestres, doutores. Não tenho mais motivos pra acreditar na vida, agora a pouco deixei de acreditar em mim, no mundo, nas pessoas. E toda noite eu escrevo aqui no meu diário só pra me ler e ter certeza de que eu existo, as palavras não aparecem do nada, alguém as cria. Acredito.
Não tenho me encaixado em função alguma e as horas são tormentos, cada hora é um ano e sofro por esperar, esperar pra ver. Mas ver o que? Não sei. O que eu sei é que a cada dia percebo que não sou desse mundo e me sinto um peixe fora do mar, do rio, das águas do penar. Aqui não é meu lugar, nunca foi. Acho que papai e mamãe foram cruéis abandonando-me nesse lugar, no mundo. 

Boa noite!

Francisca.

Henrique

Quando eu tinha dezenove anos eu decidi ir morar em São Paulo. Arrumei minhas malas, resolvi tudo o que tinha pra ser resolvido na minha cidade natal, até a conta na venda de Seu Venâncio eu paguei. Meu ônibus saia as sete da noite, mainha não teve tempo pra sentir saudade ou ficar aflita de preocupação, ela já tinha me abandonado quando eu era um bebê. Que mãe deixa seu filho com três meses de nascido? Mas foi culpa dela não, a seca tava de mais e Deus foi cruel feito o cão. Sem falar nos meus dois irmãos que era pra ter nascido. Até hoje eu sinto que depois de mim era pra vim mais dois, Vitória e Guilherme, do jeito que painho queria. Mas só foi eu.
Entrei no ônibus num senti falta de nada e tinha certeza que não ia me bater uma gota de saudade daquele lugar seco. Pra uns aquela cidade era igualzinho o inferno, só faltava o capeta. 
Quando eu vi a cidade grandona, que nem meus primo falava, tremi. Tremi foi de frio. Tava numa chuva danada e eu fiquei feliz, desci do ônibus e me piquei pra chuva. E mesmo ouvindo os trovão eu me acabei na chuva. Cada gota que caia do céu era de felicidade minha. Aí eu pensei, "que Deus bandido! Mata meu povo de sede e dá água a quem não precisa." Peguei minhas coisa e fui procurar um lugarzinho pra descansar, pra guarda minhas coisas. Num teve lugar pra me caber, não teve cama pra me deitar. Acabei indo pra igreja, porque painho me disse uma vez que era o único lugar mais seguro do mundo. 
Abri a mala e panhei minha toalha, sequei todo meu corpo e quando eu olhei tinha um homem me comendo com os olhos. Me senti despida diante dele, quando menos esperei já estava no quarto e na vida dele, nua. Matias era bonito, trabalhador, só não era honesto. Quando descobri que ele era casado me deu um ódio do cão. "Juro por Deus, Matias, que eu lhe mato se você não separar dela". Parece que tava com o cão nas costa, separou não. Um dia, tava bem calor, panhei a faca na cozinha e ameacei aquela miséria de morte, ele morreu de medo e se picou, sumiu Matias. 
Procurei essa mulher dele e achei. Eu tentei até conversar, resolver que nem gente, mas esse povo de cidade grande quer resolver tudo na justiça. Me retei e piquei a mão na mulher. A porra toda é que eu não sabia que a bichinha tava prenha, perdeu o filho e eu perdi minha vida. 

Guri.

Jim

























Meu menino de pouco me dá orgulho, joga bola de mansinho e tem jeito de homem.
Domingo é dia de feira e ela vai se rindo de enganar os clientes e vender suas tralhas,
seus mimos pra poder dar à mãe o alimento necessário de semana em semana.
O menino do outro lado tenta enfrentar, mas ele não é pra qualquer um não, dá rasteira
se brincar, ponta pé, cascudo e sabe correr bem, bom guri.
Ele vai crescendo e eu espantando dele a vagabundagem, os bandidos de lá da comunidade,
quero meu menino bunito e trabalhador de ser vivo e honesto, é o meu guri.


Chico que me inspira. 

A menina natimorta.

Chiehwei Lee


















A menina que tinha medo recusou-se a viver. 
Tinha medo de gente, de bicho e até assombração.
Custou por na cabeça que até pra morrer deveria ter medo.
Custou e não aprendeu. 

Verônica.

E foi a última vez em que vi Rodrigo, jogado ao chão, olhos fechados e boca sangrando.


Brooke Shaden


























No primeiro dia em que o vi era tudo muito bonito e simples, educado e seguro de si. Ele sempre aparentou ser um bom moço, não tardou para eu me apaixonar e o namorar, maldita hora, ou talvez não seja tão maldita, me valeu alguma coisa, aprendi a não confiar mais, ao menos em estranhos. 
Juntei meu espaço ao dele e num momento éramos dois em um, assim eu pensava que era e era. Nosso casamento foi lindo, minhas flores favoritas presentes, margaridas, sempre gostei e ele dizia que o cheiro que vinham delas era meu, elas roubavam de mim. O achava cada dia mais encantador e apaixonante. Nos aceitamos de sim à amor. Nossa noite de amor, sexo, foi claramente prazerosa e esquecível, hoje desejo esquecer, arrancar parte da memória e esquecer daquela noite, a última vez que o vi. Amor havia, mas ele quis provar amor por outra deusa e não era eu sua deusa do momento, mas seu bicho sacrificado. E eu lá sabia que Rodrigo era envolvido nessas coisas? Beijou-me, segurou meu pescoço, tentou me sufocar e eu gritando na parede da carne, fugindo das garras dele de segundo em segundo. Adiantou. Corri em direção a cozinha e peguei a primeira coisa que eu vi, o que provável poderia me defender. Fiz um corte leve em seu braço, mordi seu pescoço e num instante de defesa enfiei a faca em sua barriga, e eu quis? Ele me obrigou, mas tornou-se uma dança e eu fiquei encantada, loucamente com aquela faca na mão que mais parecia um pincel, fiz dele uma obra de arte. O homem que seria o pai de meus filhos agora caía aos meus pés e mentiu. Meus gritos conseguiram chamar alguém, porta abre-se, polícia. Presa por ser seu bicho quase sacrificado, presa por achar lindo os cortes no corpo de Rodrigo. Até hoje eu me pergunto quem era o mais apaixonado, ele com a ideia de sufoco ou eu com o dom da arte de matar?

Tarô verdade.

A não entrega mata o desejo alheio.

martian




















Fui em direção a "salinha da vó", como era chamada, para o encontro de dona Menina. A sala cheirava incenso, haviam dois gatos, um em seu colo e o outro deitado em um tapete. Ela me olhou, pediu que eu me sentasse. "O moço percura o que?" Sem pensar respondi que precisava da resposta. Ela fitou meu olhos, pegou as cartas de tarô e pediu que eu escolhesse, escolhi. Talvez eu não tenha escolhido as cartas certas, porque no momento em que eu escolhia pensava no carro estacionado em uma rua tão deserta, e se alguém passasse e roubasse meu carro? Seria trágico. Muito mais do que a cena ridícula que eu causei na minha vida indo ali, na "salinha da vó". "Não.. não." Entre uma palavra e outra eu via em seus dentes pedaços de amendoim, sua língua fazia movimentos estranhos e mostrava-se branca. "Num vai dá certo, aqui eu tô vendo que o moço vai começar um novo relacionamento". Tremi. "Mas tem a distância, num via dá certo." Naquele momento eu imaginei que seria a Marilia, conheci em um congresso, bonita e inteligente. Até marcamos um encontro para o fim de semana, eu até estava contente em sair com alguém, mas pensando bem, não vai dá certo mesmo. Levantei, paguei com cara de satisfação e fui em direção ao meu carro, estava lá. No caminho de casa pensei no que dona Menina falou, cheguei a conclusão de que a distância não é a física, a distância é minha, porque eu ainda amo a Karina. 

Dora.

Antonis

























Eu só precisava ter certeza de que a Dora era a mulher da minha vida. Quando a conheci fiquei fascinado com seu jeito e a forma com que lhe dava com as pessoas, a forma sútil e delicada de conquistar qualquer pessoa de cabeça dura. Ela quebrava opiniões e me deixava boquiaberto, logo fiquei encantado. E ainda nem mencionei sobre seus lábios, talvez rosa, de uma cor que não tem explicação de tão desejada. Suas pernas, cintura, olhos. Os olhos eram mais que encantadores, eles eram os culpados por tamanha discórdia entre homens. Suas mãos me fizeram ir até meu quarto pela força de meu pensamento de pecador, ela nua e eu morrendo aos poucos de prazer. Me valeu esperar toda aquela noite e os dias de nossos encontros pra entender melhor um ao outro. Hoje fico perdido, Dora se foi. E foi necessário, tinha que ser assim. Logo a Raquel me surgiu e me fez ter vontades de viver, mas ela não era a mesma mulher que eu amei, ou talvez ainda amo. A verdade é que desde que Dora arrumou as malas e partiu eu se quer tive a coragem de puxa-la pelo braço e lhe dar um beijo, igual a esses de cinema. Tolice! Tolo sou eu, preferi essa vida ao lado de Raquel por ser tudo mais simples, menos brigas, menos complicações e perdi o amor a minha vida. Agora minha colheita é de tudo que plantei. Nunca mais a vi, sinto saudades. Por onde será que anda a mulher da minha vida?