Raquel.

Eu não o amo!
Meu senhor nem desconfia de minha tamanha ousadia. Às vezes, quando fica tarde, espero que ele durma para que eu possa partir rumo aos braços de minha futura discórdia. Espero me arrepender de tudo isto, sei bem que aos olhos de Deus isto é pecado mortal, mas prossigo nessa doença infame que consome meu juízo.
Fui muito bem educada, recebi todos os conhecimentos sobre minha fé. Eu ia as missas, mas agora o corpo que comungo, que me alimenta não é o do Cristo. Meu senhor ainda acredita em mim, pensa que sou uma mulher de fé, de temor a Deus. Como poderia eu mentir para ele? Nunca. Aproveito-me disto.
Já faz duas semanas que aquele rapaz aquece meu corpo pálido, faz duas semanas que meu senhor procura-me e estou enferma, com dores no corpo, enxaqueca, dor de dente, dor na consciência. Cada dia eu lhe dou uma dor diferente, mas o faço por não suportar mais que ele toque meu rosto, meus dedos, minha boca. Não o amo mais!
Espero que Deus nos perdoe, espero que me perdoe. 
Nesse breve momento meu quarto se faz em silêncio e eu ainda penso se me vale mesmo estar aqui, eu poderia fugir. Talvez numa outra cidade eu poderia mostrar minha face... sou incapaz. 
Sou covarde o suficiente para continuar não amando meu senhor. 

Nenhum comentário: